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Issue 2018

Quando os alimentos se tornam imateriais 
Confrontar a era digital


Nas últimas décadas, bens públicos como a água, a educação e a saúde — os pilares dos direitos humanos — têm sido transformados, cada vez mais, em mercadorias comercializáveis. Os alimentos, evidentemente, são comercializados há séculos, mas a recente desregulamentação do mercado levou à sua completa mercantilização. Este processo contribuiu para a desapropriação dos recursos produtivos, que afeta as comunidades camponesas, prejudica o ambiente e modifica as nossas dietas, tornando-as cada vez mais inadequadas. A fragilidade do quadro regulamentar tem gerado um distanciamento cada vez maior entre o que é considerado legal e o que é realmente sustentável e coerente com os direitos humanos.

Além disso, três dinâmicas interligadas — desmaterialização, digitalização e financeirização — estão agora a alterar a natureza dos bens comercializáveis e dos mercados onde são vendidos. Claramente, os nossos sistemas alimentares estão numa importante encruzilhada. O fracasso do sistema alimentar agroindustrial já é amplamente reconhecido, até mesmo pelo Fórum Econômico Mundial e por outros agentes que, no passado, promoveram a Revolução Verde. Apesar de terem sido muito criticadas recentemente, essas mesmas organizações e agentes afirmam agora ter uma nova "solução", conhecida como a Quarta Revolução Industrial. Tal mentalidade, dita "inovadora", propõe uma fusão de tecnologias que está a eliminar as fronteiras entre as esferas física, digital e biológica. Diante desta nova narrativa, devemos todos empenhar-nos para enfrentar as ameaças que estão por vir.

Neste contexto, a edição deste ano do Observatório examina os impactos da desmaterialização, digitalização e financeirização nos nossos sistemas alimentares. É discutida a forma como esses processos alteram a conceção do mercado de alimentos e afetam os hábitos de consumo nos centros urbanos e noutras regiões. Também são examinadas as mudanças nos objetivos da ação política em busca da soberania alimentar e as melhores maneiras de lutar pela concretização do direito humano à alimentação e à nutrição adequadas. Leia o Observatório, reflita e envie-nos as suas ideias sobre estes novos desafios e os caminhos a seguir!

Pela primeira vez, o Observatório inclui um suplemento